domingo, 15 de maio de 2011

Os Canibais na Sala de Jantar - Arnaldo Jabor

                                        O Assalto
...Outro cenário seria o do assalto. Estou no carro no mesmo lugar
e um garotão ou dois me metem um revólver na cara e me levam o
relógio, a carteira, talvez o carro e talvez me matem. Excluamos a
morte, para sentirmos o after-taste, o arrière-goût, o prazer do assalto.
Primeiro, o assalto inverte a posição. Eu sou a vítima, não o
esmoler. A pobre pessoa sou eu, num primeiro instante. Cheio de medo,
tenho de soltar a grana para não morrer. O assalto é a esmola ao
contrário; você recebe a graça de viver, se for humilde. Eles é que dão a
esmola.
Além disso, o assalto desconstrói terrivelmente o meu universo.
A pobreza perde sua face milenarmente doce e triste e ganha a face da
vingança. A injustiça social que se abatia sobre eles é desviada sobre
você. Você passa a ser vítima de uma injustiça social. E, mais terrível,
aqueles pobres-diabos que tinham a missão de manter a sociedade
funcionando na injustiça eterna se rebelam e parecem mudar a face do
mundo. Há um sabor de sacrilégio no assalto. O assalto não te exclui.
Ele te inclui. Você é o culpado de ter coisas, não os outros, os tais
outros malvados. No assalto, você é vítima e culpado. Isso provoca um
sentimento de confusão no mundo. Mais ainda se você for metido a
progressista, a amante dos pobres oprimidos, um petista talvez. Nada
pior que um petista sendo assaltado.
E aí começa um processo de inclusão em você, de incriminação,
em que você é uma peça deste complexo micro-macro de injustiças, que
começa talvez no capitalismo de Nova York e acaba ali no teu relógio.
Retraçando o mapa, vemos que o teu Rolex foi comprado com o dinheiro
que teu pai deixou da fazenda que o avô vendeu para pagar o banco que
etc. etc... e daí vai-se numa linha genealógica de dinheiro que acaba te
remetendo ao mundo dos exploradores.
Não há remissão no assalto. Além de te levar a grana, a culpa é
tua. Com o fim do mundo da caridade, todos ficam suspeitos, todos
incluídos no crime, e a guerra começa para todos. Ficam visíveis
relações finíssimas: no esgar da cara de um burguês nordestino se vê a
seca desenhada como uma tatuagem; na barriga de um político ou num
bigode se vêem anos de corrupção. O fim da caridade é útil. Acabou o
mundo do escândalo bondoso e vai começar o mundo da violência. E
através dos olhos furiosos dos marginais a cara verdadeira do Brasil
aparecerá. Nunca quisemos ver a miséria, agora não há outro jeito.
Quando ainda dava tempo, e havia dinheiro para consertar, não fizemos
nada — há uns 30 anos. Agora é tarde demais; iremos correndo atrás
do social (como se houvesse algo fora) para ver se ainda dá para
quebrar um galho paliativo, cestas básicas, reforminhas etc... mas não
dará mais tempo. E como o país é um enigma politico-secular, com um
jogo de poder onde não se consegue consenso nunca (vejam o inferno de
partidarismos que não aprovam nada nunca), teremos finalmente o
social desencadeado. Vai acabar a ópera-bufa e começar a tragédia. O
fascismozinho caboclo vai começar a criar formas novas de extermínio.
Está sendo chocado o ovo da jibóia, que culminará numa ditadura.

domingo, 1 de maio de 2011

Guilherme - uma pessoa muito legal.

Pessoas corajosas não são aquelas que não tem medo de nada. São aquelas que tem medos, mas enfrentam-os. Afinal, o medo não é um sentimento depravado, ou vergonhoso. Totalmente pelo contrário, o medo nos torna mais humanos e mais inteligentes. O medo nos faz pensar, o medo nos ensina, o medo nos evolui.